Olhando mais uma vez para o meu semblante acabado, olheiras roxas, olhar desesperado, uma cicatriz do lado esquerdo a baixo dos lábios – marca da época em que queria absurdamente esquecer – e juntando tudo isso se formava uma feição... triste. Amargurada. Desesperada.
Corri imediatamente para a cozinha, abri o armário, uma saída, era isso que eu precisava, uma saída! E a mais próxima que encontrei foi dentro da primeira gaveta do armário da cozinha – o faqueiro. Com as mãos trêmulas e os olhos marejados, cheguei à conclusão de que aquela era a melhor fuga que eu podia ter. Aos poucos meus dedos encostaram-se à maior e mais afiada das facas, a segurei com toda força e fui correndo para o meu quarto, de frente para o espelho que agora refletia todo o meu corpo, queria assistir a minha própria derrota, ao próprio sofrimento estampado em meu rosto magro e sem vida. Observei a minha mão carregando a faca lentamente até minha barriga e quando faltava apenas um centímetro para a consumação de uma vida inteira de desgostos, a imagem de Caio - meu amigo desde quando eu freqüentava a igreja com minha mãe, uma criança ainda – me veio à mente, fazendo-me lembrar do que ele havia dito alguns dias atrás ‘’Você é especial, cara. Sempre vai haver alguém que te queira melhor, e esse alguém morreu numa cruz, pra te salvar, pra que hoje você não precisasse andar na escuridão! ’’ Soltei a faca. E junto com ela desmoronei no chão, as lágrimas rolaram e eu procurei, como se fosse a última coisa a fazer na vida, o meu celular. Disquei um número e na tela do aparelho estava escrito: Chamando Caio.
Enquanto esperava por ele sentado, agarrado as duas pernas, chorava feito uma criança pedindo o colo da mãe. Caio chegou e parou na porta, seu olhar era de profundo pesar. Hesitou por um momento e foi correndo ao meu encontro, me agarrou e nós dois choraramos toda a dor que havia num coração derrotado pelo pecado e num outro que havia lutado com todas as suas forças para salvar o amigo que amava e que agora suspirava aliviado, vendo a faca caída, intacta.
- Essa vida não é pra você, cara – Caio suplicava e eu colocava pra fora todas as lágrimas que denunciavam aquele meu antigo viver torto, escuro.
- Deus te chamou para a vida e não para a morte. Não se deixe cair em jugo de escravidão novamente! Não!
- Eu quero ser livre. Não quero mais ter essa falsa liberdade do mundo, a liberdade que me engana, só pra depois me levar para o mais profundo abismo. Eu quero ver a luz da vida de novo! – Suplicava.
- Deus te dá toda a liberdade, que vem acompanhada de uma herança eterna. Não permita ser comprado pelas idéias mentirosas e mortais desse mundo perverso e mal. Siga a Deus, tenha a vitória!
- Cristo morreu por mim, né? Ele agüentou tudo por mim, não é mesmo?! Que egoísmo tentar anular todo aquele sacrifício!
Caio olhou dentro dos meus olhos, mais uma lágrima escorreu e ele olhou para o céu, gritando:
- Eu te amo meu Deus!!!!! – e voltando-se para mim, me abraçou forte e completou – E também te amo muito, amigo.
(Autor Desconhecido)

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